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Comportamento + Trabalho

Alcoolismo no trabalho

Nas empresas, o excesso de álcool associado ao consumo de drogas causam sérias perdas financeiras e de imagem pública. Expõe o empregado, seus companheiros, o público e a própria empresa a diversos riscos. É responsável por uma queda de produtividade equivalente a 500 milhões de dólares por ano, responde por 25% dos acidentes de trabalho e os usuários faltam dez vezes mais do que os não usuários.
A combinação perigosa entre álcool e acidentes é considerada questão de saúde pública. Entre os traumas sofridos estão desde contusões e cortes superficiais, mais freqüentes, até casos graves de politraumatismo. Mais da metade das vítimas do álcool são homens com renda média entre 2 e 5 salários e escolaridade de 5,6 anos.

No país, entre 4 e 6% das mulheres são dependentes de álcool e é sabido que a maioria delas não procura atendimento especializado.
O Laboratório de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP já realiza exames para mais de 300 empresas brasileiras. O diretor deste laboratório, explica que este tipo de programa não é repressivo porque a prevenção pode inibir o uso, além de tratar e possibilitar a recuperação.

Veja o que algumas pessoas em tratamento relatam sobre o tema!

Dona Nair

Comecei a desenvolver a doença aos 15 anos em uma festa de aniversário. Eu era muito tímida e com dois copinhos de ponche virei a pessoa mais extrovertida do mundo. Meu pai possuía um armazém o que facilitava meu acesso à bebida. Mudanças de humor, caráter e comportamento, ocasionados pela bebida, fizeram com que as brigas com minha madrasta se tornassem constantes, até que saí da casa do meu pai para ir morar com minha avó.

Trabalhava em uma grande loja de departamento, e achava que estava tudo muito bem até que comecei a beber no horário do almoço, cada vez em maior quantidade. Fui descoberta por um gerente e imediatamente demitida. O fato foi espalhado e os comentários me prejudicaram a ponto de não conseguir mais trabalhar em lugar nenhum. O máximo que pude conseguir foi um trabalho como faxineira. Costumava limpar pela manhã o escritório da diretoria onde encontrava sempre restos de bebidas deixados no dia anterior, então juntava tudo em uma garrafinha bem discreta e bebia no decorrer do expediente. Depois de algum tempo, isto já não era o suficiente e passei a beber o conteúdo das garrafas também. Fui descoberta pelos diretores e, novamente, me vi desempregada.

Minha doença se desenvolvia cada vez mais rápido. Como todos já sabiam do meu problema, as chances de conseguir trabalho eram cada vez menores, a única proposta de trabalho que recebi depois disso foi cheia de segundas intenções. Uma proposta de trabalho mediante "alguns favores" pessoais.

Me casei e tornei-me feirante e só não era demitida porque meu patrão era meu marido. Quase arruinei meu casamento, perdi um filho adulto, também vítima do alcoolismo, fazia cenas terríveis que envergonhavam minha família e perdi vários clientes do meu marido por culpa do álcool. Minha pior tortura no trabalho era ter que fazer as entregas, pois tinha que conversar com os compradores e o cheiro de álcool que saía de mim era terrível, como a maioria dos usuários de álcool tinha sempre uma desculpa para tentar enganar as pessoas, mas, na verdade, "eu só estava enganando a mim mesma".

Sofri um grave acidente de trânsito do qual tenho diversas seqüelas até hoje, apagões e lapsos de memória são constantes. Um dia, depois de muito sofrimento, fui até um grupo do AA através de um convite. Não ingressei para parar de beber, só queria aprender a beber socialmente, como se isso fosse possível perante minha impotência em relação ao álcool.

"Tinha o sonho de ser costureira, sinto não ter realizado. Nem um sonho que aparentemente é tão pequeno foi permitido a esta vítima do álcool".

"Gordo", 22 anos, desempregado:

Meu primeiro trabalho caiu do céu. Meu pai arranjou tudo para mim. Nesta época, eu tinha 17 anos. Bebia às vezes. Para ser mais honesto, quase sempre. Tomava uma cerveja na hora do almoço só para relaxar e meu comportamento começou a mudar no trabalho desde então. Três ou quatro meses depois, em vez da cerveja, já estava tomando pinga com limão. Já não tinha nenhum ânimo de retornar ao trabalho.

Não sei dizer ao certo como tudo aconteceu, pois aconteceu muito rápido. Éramos em três office boys na empresa e quando os outros dois saíam de férias, eu conseguia dar conta do trabalho deles. Depois, por culpa do álcool, tudo mudou. Não era demitido por causa dos meus vínculos familiares na empresa. Recebia meu vale de quinze em quinze dias. Bebia tudo e no dia seguinte não ia trabalhar. Relaxei de vez, fazia qualquer coisa para beber. Com quase dois anos de emprego pedi minhas contas. Recebi todos os meus direitos trabalhistas e consumi tudo em álcool.

Quando meu dinheiro acabou, comecei a mandar currículos e até fui chamado para entrevistas. Não ia por vergonha. Como poderia fazer entrevistas com aquele cheiro de álcool na boca? Nosso mercado de trabalho já está escasso demais para correr o risco de admitir um alcoólatra.

Meus pais me internaram pela segunda vez. Nesta internação conheci o AA. Ingressei e comecei a ter forças para me livrar da doença. Tive recaídas sim, mas continuo na busca de manter-me sóbrio. Agora, estou procurando trabalho e tentando reconquistar a confiança da minha família.

Eu não sou um derrotado. Um dia ainda vou ser psicólogo!

Marcos, "garanto que já passei dos 30", barman

Tive muita sorte na vida! Fui descoberto por uma repórter. Ela dizia que eu tinha algo de diferente, de especial em mim.
Desde criança, eu sempre pensei: ‘Vou ser alguém!’
Meu primeiro trabalho iniciei aos 15 anos de idade. Dava para manter as roupas que gostava de usar e para tomar meus pileques nos finais de semana, mas não era muito atraído por bebidas. Aos 17 anos, comecei a trabalhar num pequeno bar. Tudo aconteceu muito depressa. Graças à ajuda desta repórter, aos 23 anos, eu já possuía meu pequeno império.

Eu fazia a diferença. Já tinha meu próprio negócio. Quando sentia o clima meio monótono, subia no balcão e começava a quebrar copos. Os clientes adoravam! Comecei a me tornar muito conhecido. Aparecia sempre na mídia, estava sempre em evidência. Mesmo assim, sentia um grande vazio. Não sabia o que era, mas tinha a sensação de que me faltava alguma coisa. Foi aí que comecei a beber. Adorava uísque com coca-cola. Foi preciso apenas alguns meses para que me tornasse um alcoólatra.
Da mesma maneira que me ergui rapidamente e me tornei um ‘proprietário’, tudo também caiu muito rápido.

Aos trinta anos, tinha consumido, com álcool e drogas, tudo o que possuía. Por causa de dinheiro, encostei uma arma na cabeça de um amigo e quase o matei. Honestamente, eu queria parar de beber, mas não conseguia. As coisas em minha vida chegaram a tal ponto que tive que ir morar na rua. Eu já não tinha mais nada. Passei anos vendendo ilusão e um dia consumi esta ilusão.

Meus pais me acolheram com a condição de não beber mais. Eles tiveram uma participação importantíssima em minha recuperação. Claro, continuei bebendo. Um dia, voltando de uma festa, estava tão alcoolizado que não consegui abrir a porta. Cai ali mesmo e meus pais não me recolheram. Naquele dia decidi que se não encontrasse minha cura, ia me matar. Estava decidido a tirar minha vida. Lembrei-me de uma placa de AA que tinha visto uma vez e fui até lá. Fiquei ali, na porta, sentado o dia todo, esperando abrirem. Quando ingressei, descobri que aquela era minha tábua de salvação.

Hoje, trabalho como garçom. Vejo bebida o dia todo e, graças à Deus, não sinto vontade. Freqüento festas e bares. A única dificuldade que sinto é que já não falo mais a mesma língua das pessoas e ambientes que freqüento. É engraçado. É como estar em um lugar, mas não fazer parte dele. Você tem que se adaptar sóbrio. Existe preconceito no trabalho com relação ao alcoolismo. Depois que parei de beber, descobri que você não pode abrir seu anonimato para qualquer pessoa. Perdi um emprego por contar ao dono do local que eu era um alcoólatra em recuperação.

Na época em que era proprietário do bar, conheci vários profissionais, de diversas áreas, que exerciam suas funções alcoolizados. Profissões que envolvem risco, vidas de outras pessoas. Elas depositam toda a confiança num profissional e não sabem que ele é um doente. Conheci, inclusive, um cirurgião que precisava beber antes de operar para não tremer. Pilotos, taxistas, motoristas de ônibus, enfermeiros, enfim, todo tipo de profissão que envolve a segurança de terceiros.

Já fui um proprietário. Hoje, sou um empregado. Posso dar minha visão pelos dois ângulos. A primeira atitude de alguém que tem que lidar com um funcionário com este problema deveria ser encaminhá-lo a algum lugar onde pudesse obter ajuda. Igrejas, AA, internações, existem muitas maneiras de colaborar, dar pelo menos uma chance. Não existe a cura, mas a recuperação é perfeitamente possível!

Segundo dados da própria coordenação e de prestadores de serviço do AA, inúmeras empresas possuem, dentro de suas dependências, espaços reservados a grupos de apoio e tratamento de seus funcionários com problemas de alcoolismo e também dos demais trabalhadores para que aprendam a conviver com estas pessoas de forma adequada.

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