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Pergunte ao doutor erótika

"Eu fingia o orgasmo"

Nunca consegui chegar ao orgasmo. Estou com 34 anos de idade, e esse problema já está me angustiando. Não me considerava "fria", pois até quatro ou cinco meses, gostava de ter relações. De modo geral, eu ficava excitada nas relações e, às vezes, tinha a impressão de que ia sentir o orgasmo, mas exatamente neste ponto a sensação passava e não voltava mais. Mesmo assim, fingia que estava satisfeita, e meu marido, então, terminava.

O problema é todo meu, porque ele é muito carinhoso, me estimulava bastante antes do ato. Durante a relação, ele ficava me esperando até perceber que eu tinha "conseguido". Eu fingia que me realizava porque ficava com pena dele, achava que poderia se cansar tentando me ajudar. Além disso, não queria que se sentisse culpado nem magoado comigo. Mas um dia, de repente, ele me perguntou se eu tinha realmente gozado. Fiquei tão embaraçada, que comecei a gaguejar. Ele insistiu na pergunta e não tive outro jeito a não ser dizer que não. "Se por algum motivo você não conseguir gozar, não tem importância, não precisa fazer de conta que gozou", ele me disse. Fiquei confusa, mas não tive coragem de confessar que sempre tinha fingido.

Talvez seja devido à minha educação, pois fui muito repri-mida na parte sexual. Minha mãe era bastante enérgica nesse aspecto, e depois continuei a ser reprimida pelas freiras do colégio. Por exemplo, eu tinha uma idéia do que era masturbação, mas nunca me interessei em praticar. Às vezes ficava excitada quando algum namorado insistia em me tocar na área sexual, mas logo afastava a mão dele. Tudo o que eu queria era casar, ter muitos filhos.

Conheci meu marido no baile de formatura de minha irmã, que é médica. Ele era seu colega de turma. Durante o namoro eu ficava muito excitada quando tínhamos alguma intimidade física. Mas na primeira relação, na noite de núpcias, percebi que todo aquele grande prazer não estava acontecendo. Ao contrário, doía muito. Para não quebrar o encantamento, resolvi fingir o que eu imaginava ser o orgasmo. E assim continuei a fazer durante oito anos, até que ele percebeu.


Doutor erótika:

Esse problema, conhecido clinicamente como disfunção orgástica, é muitas vezes confundida com a frigidez, uma dificuldade mais ampla, em que a mulher, além de não ter orgasmo, não sente praticamente nenhum desejo ou prazer sexual. Na disfunção orgástica, a mulher, geralmente, tem desejo e experimenta graus variados de sensações eróticas quando estimulada, mas não consegue o orgasmo.

Algumas dessas mulheres, embora nunca tenham obtido orgasmo na transa, podem ser capazes de atingir o clímax por masturbação ou quando é estimulada manual ou oralmente em sua área genital. Esta situação é denominada disfunção orgástica situacional. No caso de a mulher não conseguir o orgasmo em nenhuma cir-cunstância, o problema é de disfunção orgástica absoluta – era dificuldade apresentada pela paciente deste caso.

O que era "impróprio" virou "obrigação"

Até há algumas décadas, o fato de a mulher não ter orgasmo não determinava grandes preocupações. Praticamente, todo o mundo ocidental ainda vivia sob a influência de uma moral segundo a qual as reações sexuais se destinavam exclusivamente à procriação. Admitia-se o prazer do homem, porque, geralmente, se associava à eja-culação e, por conseguinte, era tido como indispensável aos propósitos da reprodução. Mas o prazer da mulher, por não ser considerado necessário à fecundação, era visto como impróprio. Isto não significa que não houvesse mulheres que sentissem e apreciassem o orgasmo. Contudo, a imensa legião de mulheres que não experimentava nenhuma sensação erótica ou não chegava ao orgasmo permanecia serena e era assim aceita pela sociedade.

Essa situação começou a se alterar a partir da década de 60, mais intensamente depois dos anos 70, com a crescente divulgação de assuntos ligados a sexo em geral e à sexualidade feminina em particular. Como resultado, criou-se uma pressão cultural em sentido inverso, ou seja, as mulheres passaram a se sentir praticamente obrigadas a atingir o orgasmo nas relações sexuais, sob pena de serem rotuladas como "anormais".

Sempre houve mulheres que simulavam o clímax quando o prazer não surgia espontaneamente, mas o seu número aumentou em razão dessa pressão cultural. No relatório Hite (1976), a respeito do comportamento sexual de um determinado segmento da população feminina norte-americana, a pesquisadora Shere Hite dá uma idéia dessa prática: cerca de 53% das mulheres responderam sim à pergunta “você finge ter orgasmo em suas relações sexuais?”.Superproteção em relação ao marido

Além da pressão cultural, há outras razões, de ordem mais pessoal, que levam as mulheres a adotar a simulação. Em alguns casos, elas tentam preservar não só o seu amor-próprio, mas, sobretudo, o do parceiro; em outros, procuram "prender" o homem. Ou simulam o orgasmo para evitar as reações emocionais de homens que interpretam a ausência do clímax sexual em suas parceiras como rejeição pessoal e ofensa à sua masculinidade.

No caso relatado, a simulação não foi notada durante vários anos pelo marido. Como o orgasmo feminino é uma experiência sensorial que habitualmente se traduz por manifestações físicas mais discretas que as do orgasmo masculino em geral, supõe-se que ele ocorre quando a mulher apresenta reações corporais nesse momento. Tais reações são em parte involuntárias, mas podem também ser voluntariamente intensificadas. Assim, se uma mulher apresentar deliberadamente os movimentos agitados de um corpo supostamente tomado de intensas sensações sensuais, seu parceiro poderá acreditar que ela está tendo um orgasmo.

As entrevistas psicológicas revelaram que por trás dos motivos apontados pela paciente para simular o orgasmo se ocultavam outras razões, menos aparentes, como sua atitude de superproteção em relação ao marido. Ela estava sempre mais preocupada em agradá-lo e satisfazê-lo do que em buscar seu próprio prazer sexual, por sua vez, era determinada pelo seu intenso receio, no plano inconsciente, de ser abandonada ou rejeitada.

Quando essas questões foram discutidas de maneira franca nas sessões de psicoterapia, realizadas com a presença do marido, ela se conscientizou de que não tinha efetivamente nada a temer. E convenceu-se de que ele estava sendo realmente sincero ao afirmar que ficaria satisfeito em vê-la sentir prazer sexual, mas que de forma alguma ela deveria sentir-se obrigada a isso para não desagradá-lo .

No curso do tratamento, ficou evidente que o homem não se mostrava egoísta, fazendo, ao contrário, um empenho sutil para que ela desenvolvesse maior grau de autonomia erótica. Mas a ansiedade provocada pelos sentimentos de insegurança da esposa impediam-na de pensar no próprio prazer, levando-a a se preocupar unicamente com a sa-tisfação do marido.

À medida que essa ansiedade foi-se dissipando nas sessões terapêuticas subseqüentes, a mulher foi encorajada a assumir um papel mais ativo na busca de sua própria satisfação. Em pouco tempo, passou a experimentar sensações eróticas gratificantes e alcançou orgasmo com facilidade quando estimulada manual ou oralmente nas áreas genitais. Ao fim do tratamento, ela já conseguia obter orgasmo na transa.


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