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Pergunte ao doutor erótika

"Ele não me procura"

Doutor, existe algum remédio para aumentar a vontade de ter relações sexuais? Não é para mim, é para o meu marido.

Ouvi dizer que tem um pozinho sem gosto e sem cheiro que a gente coloca na comida ou no uísque. Meu marido deve ter algum problema, porque temos pouquíssimas relações. Em casa, sou eu quem tem de procurar sexo. Às vezes, ele fica mais de um mês sem encostar em mim. Todo o dia diz que trabalhou muito, que não agüenta de cansaço, que precisa relaxar. Quando chega em casa, sempre toma três, quatro doses de uísque, e come muito no jantar. Depois se afunda no sofá, em frente da televisão e fica vendo filmes até de madrugada. Quase não conversa comigo.

Fui casada antes, durante doze anos, meu primeiro marido morreu num acidente de carro. Ele também não me dava muita atenção, mas pelo menos na cama era bom. Dois anos depois, casei com meu atual marido, que era desquitado. Nos primeiros dois anos, não percebi nada de anormal. Mas, aos poucos, ele foi se distanciando, sempre com a desculpa de problemas na sua empresa, que é uma construtora. O que me desespera é que o desinteresse sexual dele já dura seis anos. Outro dia ele disse que é exatamente por eu pressioná-lo tanto que não me procura sexualmente. Veja, eu estou sempre bem arrumada, mantendo meu peso dentro da linha, ando com as mãos bem cuidadas. Muitos homens me olham admirados, até insinuam coisas, mas eu não dou chance, porque apesar de tudo ainda gosto do meu marido.


Doutor erótika:

O marido, de 52 anos, confirmou que não sentia desejo sexual pela mulher, embora reconhecesse que era muito bonita e atraente, aos 44 anos. Em seu primeiro casamento, não tivera nenhum problema semelhante: ao contrário, tinha um “excelente desempenho sexual”. Com a atual esposa, no entanto, sentia-se inibido em procurá-la sexualmente e o faz cerca de uma vez por mês, para atender a sua insistente cobrança. Contudo, nessas ocasiões, quase sempre ejaculava rapidamente, agravando a mútua frustração.

Sentindo-se inferiorizado em relação à esposa no plano sexual, reduziu ao mínimo a freqüência das relações e tampouco procurava aventuras fora de casa. Percebi que a mulher se mostrava mais irritada com ele e, para não alimentar discórdias, mantinha-se, geralmente, calado.

No íntimo, consolava-se com o pensamento de que ela era exigente demais e não procurava compreendê-lo em seus problemas pessoais.

Um caso de desejo sexual inibido

O problema deste paciente é um caso típico de desejo sexual inibido, talvez o mais freqüente dos distúrbios eróticos.

Estima-se que aproximadamente 40% das pessoas que buscam aconselhamento ou terapia conjugal relatam esse tipo de queixa. Dentre as causas físicas de inibição do desejo sexual, incluem-se a depressão emocional excessiva, o uso de determinadas drogas, a presença de algumas doenças e alterações do nível de certos hormônios no sangue, como a testosterona e a prolactina.

A experiência clínica revela, no entanto, que mais freqüentes que as causas físicas são as de ordem psicológica. Neste caso, o impulso sexual é gerado pelos centros cerebrais, mas é ativamente suprimindo por um conflito intrapsíquico .

Muitas vezes, a confirmação de que a perda do desejo sexual se deve unicamente a fatores psicológicos costuma frustrar o paciente, que preferiria que fosse encontrado algum distúrbio físico como causa da sua dificuldade. Foi o que ocorreu no presente caso, em que os exames clínicos e laboratoriais excluíram qualquer fator físico como causa do desinteresse sexual. Assim, para a solução do desajuste sexual não haveria necessidade de o marido tomar qualquer medicação a base de hormônios e, muito menos, algum “pozinho misterioso”.

Excluídos os fatores de ordem física, restava identificar que elementos psicológicos estariam determinando o desajuste. Uma causa imediata parecia ser a interação entre a pressão obsessiva da esposa para que o marido tivesse relações sexuais e o receio que ele tinha de não conseguir satisfazê-la. Essa situação determinava grande ansiedade no marido, a ponto de efetivamente prejudicar o seu desempenho sexual nas raras vezes em que tentava transar.

Vendo o outro de modo distorcido.

Os fatores psicodinâmicos mais profundos envolviam, provavelmente, transferências psicológicas mútuas. Tanto o marido como a esposa reviviam, inconscientemente, um com o outro, sentimentos e emoções, que tiveram na infância e na adolescência com um dos pais. A mulher interpretava o comportamento distante e pouco afetuoso do marido como uma rejeição, exatamente o mesmo tipo de sentimento que muitas vezes experimentara com o pai. Assim, ela não conseguia perceber o marido da maneira que ele era na rea-lidade: um homem tímido e cansado, que ansiava o tempo todo por um gesto de apoio e incentivo. O marido por outro lado, não via a esposa como ela era na realidade – insegura e com muito medo de envelhecer – mas sim, como a mãe exigente e sempre insatisfeita.

Durante o fase inicial da terapia, a esposa foi conscientizada sobre os verdadeiros sentimentos do marido, ou seja que ele não era a figura rejeitadora que aparentava ser, mais apenas um homem sexualmente seguro que ainda amava. Foram também mostrada a ela as conseqüências negativas sobre o comportamento sexual do marido de sua insistência para que ele fizesse amor. Ela percebeu que tal pressão, longe de incentivá-lo, tinha apenas o efeito de intimidá-lo e aumentar a sua insegurança.

Ternura e aconchego: o remédio

A seguir, solicitou-se a ambos que, quando estivessem na intimidade se limitassem a trocar carícias suaves, sem se estimularem deliberadamente até o orgasmo e, sobretudo, sem se sentirem obrigados a ter relações sexuais. Na primeira vez que procederam dessa maneira, sentiram-se um tanto constrangido, mas gostaram imensamente da sensação de ternura e aconchego que estavam experimentando após muitos anos de inseguranças e ressentimentos.

Além disso, nas sessões de psicoterapia ambos puderam perceber as características positivas de seu relacionamento. Isso reduziu o nível de ansiedade da esposa, contribuindo para que abandonasse sua habitual exigência de relações sexuais. Ela percebeu, ainda que essa exigência era mais uma forma de tentar obter carinho e atenção do marido, do que propriamente um meio de conseguir a satisfação de suas necessidades sexuais.

Sexo sem ansiedade nem constrangimento

Nos encontros realizados na intimidade, o marido continuava a se preocupar com o ato de não conseguir uma ereção imediata ao ver a esposa nua, foi-lhe explicado, então, que essa atitude de observar a própria reação sexual, provocava um estado de ansiedade incompatível com o funcionamento adequado dos mecanismos responsáveis pela ereção. Ele também se sentia constrangido por necessitar de alguma esti-mulação direta no pênis para ter ereção. Foi esclarecido sobre a normalidade desse procedimento e verificou, reconfortado, que a esposa apreciava estimulá-lo dessa maneira.

O casal aprendeu também a identificar e a expressar diretamente seus verdadeiros sentimentos, evitando, assim, acumular mágoas e rancores que pudessem destruir aos poucos o relacionamento. Ao fim de três meses, o desejo sexual do marido passou a se manifestar regularmente, tendo o casal, pelo menos, uma relação satisfatória todas as semanas.


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