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Comportamento

"Reconciliação depois da aventura"

Descobrir que o parceiro ou a parceira "está tendo um caso" é uma experiência traumática, sobretudo quando a pessoa se sente enganada e traída. Como os casais de hoje enfrentam esse problema? Como é possível reconstruir a relação?

O envolvimento de um parceiro com uma outra pessoa não é certamente um problema freqüente da vida a dois, mas talvez seja o mais difícil. Abala tão fortemente a relação, que juntar seus pedaços é uma tarefa que exige coragem, paciência e uma grande dose de compreensão.

A devastação que uma aventura amorosa provoca depende muito menos das circunstâncias em que ocorreu do que da personalidade e das atitudes dos parceiros envolvidos. Alguns se recuperam com certa facilidade movidos pelo forte desejo de prosseguir juntos e evitar maiores transtornos.

Outros só se recuperam depois de uma fase de desgaste emocional intenso. E, para uns poucos, o estrago é virtualmente definitivo – o máximo que conseguem é uma trégua frágil e dolorida.

Por que as aventuras começam?

Há casos que surgem de uma atração súbita e inesperada, de uma paixão incontrolável. Muitas vezes, contudo, os motivos que impulsionam alguém a viver uma aventura estão no próprio casamento.

Dúvidas sobre a virilidade, no homem, ou sobre o poder de atração, na mulher, assim como o temor de envelhecer, podem levar um dos parceiros a se lançar numa conquista amorosa simplesmente para provar a si mesmo que ainda é atraente. Há situações, também, em que as necessidades e preferências sexuais da pessoa mudaram com o tempo.

Aquele que sai em busca da satisfação de suas novas necessidades, geralmente, não está predisposto a um envolvimento emocional profundo, e costuma encarar tudo como uma pequena "escapada".

É bom que se lembre, em primeiro lugar, que essas aventuras ocasionais acontecem não porque os vínculos entre os parceiros sejam fracos, mas, com freqüência, porque são fortes o bastante para se supor que o caso vai se desenvolver e se esgotar naturalmente, sem ameaçar uma união estável.

É importante não esquecer também que toda situação vivida por um casal é produto de uma relação, e que, portanto, os dois parceiros são responsáveis. Egoísmo, indife-rença ou simples desleixo impedem que os parceiros lidem sintonizadamente um com o outro ou que percebam que é tempo de mudar algo em suas vidas.

Se a pessoa reconhecer o papel que desempenhou na condução recente de sua vida a dois, terá melhores condições de evitar cenas inúteis e desgastantes. E, mais importante, não se colocará na posição de vítima, deixando-se afundar numa onda de autocompaixão. Os parceiros capazes de discutir calmamente, de igual para igual, cada um consciente da própria responsabilidade, conseguem restaurar seu relacionamento de um jeito muito mais firme que aqueles que atravessam um período turbulento de ódios, recriminações e ameaças de vingança.

"Padrões de fidelidade"

Tradicionalmente, devido ao duplo padrão de relacionamento, por exemplo, o marido experiente e a noiva virgem, homens e mulheres encaram a questão da fidelidade de formas bem diferentes. A mulher tradicional se prepara para aceitar que seu marido dê umas "escapadas" de vem em quando, mas dificilmente suporta a idéia de que ele esteja emocionalmente envolvido com "outra". Já o homem que segue esse padrão duplo de moral se permite naturalmente umas aventuras, mas chega a sentir repulsa sexual por sua mulher se descobre que ela foi para cama com alguém.

Para ele, é mais grave que ela tenha com outra pessoa uma relação sexual do que uma ligação afetiva.

Nos dias de hoje, com as mudanças das atitudes sexuais, os sentimentos dos dois parceiros tendem a se aproximar mais. Entre certos casais jovens, ambos os parceiros tendem a adotar a atitude feminina tradicional – em que um envolvimento emocional profundo com outra pessoa é repelido com muito mais força do que uma escapada sexual.

Nota-se ainda, entre casais de gerações mais recentes, uma tendência a transformar a antiga exigência de fidelidade sexual numa exigência de lealdade. Uma relação eventual fora do casamento pode ser tolerada mais facilmente ou até mesmo prevista num acordo entre os dois. O condenável – e que de fato é considerado traição – é enganar o parceiro escondendo uma relação com alguém e mentindo sobre isso.

Se essa disposição torna as pessoas bem mais flexíveis, certamente, não as imuniza contra o ciúme. Mas ajuda a lidar com esse sentimento sempre doloroso e corrosivo, neutra-lizando um de seus elementos mais destrutivos: a desconfiança.

"Tentando fazer as pazes"

Uma das maiores barreiras à reconstrução de uma relação é justamente a perda de confiança. Mesmo que não seja uma perda definitiva, a recuperação será lenta e delicada. Da parte de quem se aventurou, implica demonstrações de dedicação e lealdade. Da outra parte, exige um esforço sistemático para não se deixar tomar por suspeitas constantes.

Como não é possível dar provas definitivas de lealdade, o reatamento efetivo dos laços vai depender não só de reconquistar a confiança mútua, mas também de aprender a lidar com a desconfiança quando ela aparecer.

Para começar, essa aprendizagem exige que se afastem os "fantasmas" criados pelo ciúme. Como o ciúme é uma emoção irracional, a gente não consegue erradicá-lo simplesmente querendo. Mas podemos discipliná-lo procurando ser racionais, nos atendo sempre rigidamente aos fatos.

Se você é mulher e vê seu parceiro tagarelando alegremente com outra, logo poderá imaginar que os dois se envolverão numa aventura, embora nenhum fato indique isso. Acolhendo essa fantasia totalmente inspirada pelo ciúme, você experimentará o mesmo desgaste e infelicidade que sentiria se a situação fosse real, e isso só prejudica o relacionamento.

"A reação de quem se machucou"

A ferida aberta pelo sentimento de perda ou de "traição" pode ser tão profunda que a punição do outro apareça como a única forma de fazê-la cicatrizar. A vingança desponta, então, como uma possibilidade de se recuperar o amor-próprio.

Lançar mão de todos os meios disponíveis para afogar o parceiro em sentimentos de culpa é uma das maneiras mais comuns de se vingar do sofrimento por ele causado. A culpa que naturalmente recai sobre o "desgarrado" é um sentimento, geralmente, tão duro quanto o orgulho ferido ou a quebra da confiança sentida pelo "ofendido". Mas aprender aplicar "uma boa lição" é uma atitude destrutiva, que só irá dificultar a recons-trução de um relacionamento que se considera importante.

Para combater os impulsos vingativos, é preciso não esquecer que o parceiro é uma pessoa importante, que mereceu amor, dedicação e com quem se acumulou todo um lastro de afeto, prazer e experiências agradáveis. Será que uma aventura é mais importante que tudo isso?

"Quem mais ficou sabendo?"

O orgulho e a auto-estima ficam mais comprometidos quando a aventura chega ao conhecimento de outras pessoas. A preocupação com a opinião alheia é fortemente destrutiva, e as atitudes dos outros podem aprofundar a ferida aberta, tanto transformando o caso em assunto de fofocas quanto alimentando a autocompaixão da parte "traída".

É melhor que os parceiros consigam manter em suas mãos as rédeas da situação e que se isolem das contaminações danosas. Afinal, vivem um com o outro, e não com os outros. E a ninguém devem permitir participar de um assunto que só pertence aos dois.

"Efeito sobre os filhos"

Essa regra só não vale quando os "outros" são os filhos. Com suas "antenas" sensíveis, eles sabem ou, no mínimo, sentem tudo que acontece à sua volta. É inútil tentar agir como se nada houvesse. E, em muitos casos, é melhor dar algum tipo de esclarecimento a eles do que deixá-los totalmente no escuro, alimentando fantasias, certamente piores que a realidade.

Essa é uma forma de manter os filhos seguros e, também, os possíveis efeitos de suas reações sobre a crise. Uma criança mais velha pode, por exemplo, tentar ajudar.

Inevitavelmente tomará partido, o que é mau: assim é provável que o filho se torne uma nova fonte de atritos, passando a atrair a hostilidade de um dos parceiros. É melhor os dois admitirem para a criança que, de fato, têm um problema, mas que somente eles podem resolvê-lo.

Será uma lição valiosa para o futuro dos filhos verificar que um desentendimento sério não significa o fim da vida a dois. E para os parceiros, o saldo da superação de um grande trauma será o fortalecimento de sua relação de amor.


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