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Comportamento

Amores clandestinos

Quando um homem e uma mulher se casam ou resolvem viver juntos, costuma ficar implícito desde o começo que devem manter-se fiéis um ao outro. Mas, às vezes, a tentação de um relacionamento sexual com outra pessoa pode tornar-se irresistível. O que acontece nesses casos?

Dividir o ser amado com alguém? Nem pensar! É assim que a grande maioria das pessoas reage a essa idéia, mesmo antes de se decidir por um relacionamento estável. Em nossa sociedade, a posse tem que ser total, e a fidelidade assume importância definitiva para a continuidade da união. Antes de mais nada, é preciso ter certeza de que jamais haverá traição. Daí as juras de amor eterno e a solene promessa de dedicação exclusiva, principalmente, quando tudo é forma-lizado pelo casamento.

No princípio, quase todos os casais procuram sinceramente ser fiéis. E isso é até bem fácil, porque estão muito apaixonados, tudo é novidade e a vida a dois tem sabor de aventura. Mas o fantasma da rotina é perigoso e nem sempre as boas intenções bastam. De maneira bastante contraditória, tem gente que acredita estar respeitando o compromisso assumido com seu par e, ao mesmo tempo, alimenta o desejo de manter relações paralelas. Para muitas dessas pessoas, ter um caso acaba virando idéia fixa, obsessão. Isso acontece por uma série de motivos – desde o mero desencanto com o desempenho sexual do parceiro até as mais variadas inquietações psicológicas.

Fazer um levantamento exato do número de pessoas "infiéis" não é fácil – neste campo, sobretudo, as estatísticas não são muito confiáveis. Afinal, a maioria guarda cuidadosamente em segredo seus amores extraconjugais. Assim, é quase impossível dizer se hoje há mais gente nessa situação do que há vinte ou trinta anos.

Em todo caso, há uma discussão mais aberta sobre o assunto, como acontece quanto ao sexo em geral. Quase todos os adultos podem dizer que co-nhecem pelo menos alguém que está tendo ou teve um caso.

Moral dupla, amor e fantasia

Dar uma escapadela, ter uma aventura, pular a cerca são algumas das expressões usadas para designar uma relação extraconjugal. Quase sempre acompanhadas de um risinho cúmplice e murmuradas num tom de fofoca. O "infiel" é visto como uma mistura de herói e vilão, mas de qualquer forma corajoso e digno de inveja. Por que a infidelidade parece tão atraente?

Antigamente, era tudo muito simples. O homem casava com uma mulher virgem e "direita" - o que quase equivalia a dizer desprovida de sensualidade -, que só se "submetia" ao sexo com o fim de procriar. Nada mais justo, supunha essa sociedade regida por homens, que o homem satisfizesse seus impulsos sexuais fora de casa – com prostitutas ou outras mulheres "livres", isto é, que não eram "direitas".

As esposas "compreendiam e aceitavam" (mesmo porque não tinham outra escolha) esse comportamento. Mas ai da mulher que se aventurasse a sair um milímetro de sua conduta de esposa: poderia ser assassinada impunemente pelo marido ou, na melhor das hipóteses, ficar à margem da sociedade pelo resto da vida.

Hoje as coisas não são bem assim. Nem o homem desfruta de toda essa liberdade nem a mulher é tão aprisionada e castrada. As pessoas mais esclarecidas tendem a preferir a busca da felicidade ao cumprimento. Falta de diálogo, tédio no cotidiano, pouca satisfação na cama ou o anseio pela emoção da aventura fazem com que as pessoas fantasiem, ima-ginando um caso extraconjugal. Em geral, a fantasia fica por aí mesmo; a maioria das pessoas nada faz para concretizá-la, a menos que deseje romper o relacionamento presente e iniciar um outro.

Nem todo mundo está disposto a se envolver num esquema de mentiras. Como nas novelas, um romance clandestino exige uma trama muito bem elaborada, oportunidade e meios. Além disso, em flagrante, não aparecendo em lugares públicos. Esse jogo de esconde-esconde pode até ser divertido para alguns. Mas a alegria e o brilho de uma nova paixão podem acabar obscurecidos pela culpa.

Momentos críticos

Geralmente, as pessoas se envolvem num caso em certos momentos desgastantes de sua relação regular. São ocasiões delicadas, em que o casal está temporariamente separado ou vivendo problemas sérios (aí, o novo relacionamento pode ser uma fuga).

Freqüentemente, o ambiente conjugal é muito propício à instalação do tédio e da monotonia. Morar juntos, dia após dia, pode ser seguro e confortável, mas pode não provocar excitação e fascínio pelo resto da vida. Para muitos casais, esse dia-a-dia chega a ser massacrante. E quando a vida sexual é medíocre e mecânica, um amor clandestino é bem mais provável. Uma dona-de-casa absorvida numa torrente de fraldas, panelas e detergentes pode sentir muito tédio e solidão, enquanto o marido está empenhado demais em construir sua "carreira". A comunicação entre os dois fica difícil, na verdade, estão vivendo vidas completamente diferentes. À medida que os filhos crescem e vão para a escola, a mulher sente seu tempo livre como um vazio e pode encontrar num caso amoroso a compensação de uma vida infeliz. Já sente-se menos vítima do cotidiano e tem, teoricamente, menos necessidade de "escapar". Mas isto pode acontecer se ela não estiver feliz com o parceiro.

Muitos homens justificam as próprias "escapadas" pelo fato de suas mulheres estarem ocupadas demais nos afazeres domésticos, sempre cansadas, etc. Outros admitem honestamente que gostam de "variar". Na verdade, mesmo um homem inteiramente fiel a sua esposa sente-se ocasionalmente pressionado a ter um caso ou uma rápida aventura. É como se, por meio de uma conquista, ele comprovasse sua masculinidade, sua capacidade de sedução. Na nossa sociedade, um homem que tenha relações sexuais com uma única mulher corre risco de ser considerado ingênuo, tímido, pouco "macho".

Afinal, vale a pena?

Também a maior liberdade sexual de hoje em dia estimula os casos extraconjugais. Livros, filmes, revistas e televisão desafiam constantemente a curiosidade sexual. Tanto o homem como a mulher são tentados pelo prazer e pela emoção da conquista. Envolver-se com uma mulher atraente faz o homem sentir-se envaidecido e "em forma". Provocar a paixão num homem também faz com que a mulher se assegure de seus encantos. Talvez tanto ele quanto ela não vejam grandes inconvenientes em ter relações extraconjugais. Mas, na maioria das vezes, mesmo uma aventura passageira fora da relação regular pode destruir a confiança entre duas pessoas e minar uma convivência feliz.

Mesmo o mais cuidadoso dos adúlteros, aquele que guardou seu romance secreto a sete chaves, está se enganando ao dizer que seu casamento não foi atingido em nada. De repente, um dos dois está de novo apaixonado: o mundo parece maior, mais colorido e é mais gratificante viver.

Pessoalmente está mais feliz, mais solto e com um brilho extra nos olhos. Com isso tudo, não seria justo concluir que o casamento também tenha lucrado com a infidelidade? Realmente é possível que, com o interesse sexual ampliado, o sexo conjugal possa também melhorar. Mas é muito mais provável que haja comparações desfavoráveis entre as pessoas dos dois relacionamentos.

Uma relação extraconjugal pode levantar uma enorme barreira entre homem e mulher. Segredos, sonhos e mesmo fatos e preocupações do dia-a-dia passam a ser divididos fora de casa, em vez de comparti-lhados com o parceiro com quem se vive, criando um obstáculo a mais numa situação complicada.Fim de caso. E agora?

Tudo acabado. Será possível retornar o casamento como se nada tivesse acontecido? Ou esse romance proibido marcou a vida conjugal para sempre? Ninguém sabe ao certo. Os feitos de um relacionamento extraconjugal vão depender em grande parte dos motivos que levaram a pessoa a procurá-lo e das verdadeiras razões que provocaram o fim do caso. O rompimento acontece, geralmente, por causa das próprias dificuldades que envolvem as ligações clandestinas: levar uma vida dupla, muitas vezes cheia de culpa requer um investimento emocional elevado. Se não houver afeto genuíno, então é muito pouco provável que o caso tenha longa duração. O romance também pode acabar quando um dos dois exige do outro exclusividade e o pressiona para que abandone a casa. Geralmente, a escolha recai sobre o lar.

A maioria dos homens e mu-lheres não pretende levar um caso às ultimas conseqüências. Muita gente se entrega a ele como uma forma inconsciente de pedir socorro. No fundo, a pessoa quer ser descoberta, como uma maneira de obrigar o parceiro "fixo" a perceber a insatisfação ou a falta de comunicação no seu relacionamento.

Assim, depois do abalo gerado pela descoberta de um caso, é até possível que os dois se aproximem, estabelecendo uma comunicação mais profunda entre si. Mas um empenho real para reorganizar a vida vai exigir grande dose de tolerância, compreensão e capacidade de perdão.

Se o principal motivo de caso foi uma vida sexual insatisfatória, dificilmente as coisas melhorarão com o simples rompimento e confissão da infidelidade. A pessoa traída, mesmo sabendo que o caso está desfeito, pode sentir-se constantemente inferiorizada, rejeitada e muito infeliz, sobretudo se tiver a tendência de se comparar com quem mereceu o desejo do parceiro ou parceira. Nesse caso, se o casal quiser reconstruir sua vida mesmo, é melhor procurar uma terapeuta conjugal.

Fim de caso é sempre triste. Mais ainda se um se envolveu mais que o outro. É uma situação difícil não só para o casamento atingido. Obrigadas a um adeus definitivo, as pessoas se sentem terrivelmente frustradas, sobretudo se so-nhavam em normalizar a situação. Mas o desapontamento é muito pior quando um dos dois percebe que o outro não passa de um conquistador barato, só interessado em ter tantos casos quanto for possível, em busca da confirmação de que é amado e desejado.

Quando o caso é de amor

Se o relacionamento extraconjugal torna-se um caso típico de amor, desses que satis-fazem tanto as expectativas sexuais quanto as emocionais, o impacto sobre o casamento é devastador. Ao saber que outra pessoa tomou o seu lugar de forma tão completa, o parceiro traído sente-se golpeado no mais profundo de seus sentimentos. Muita gente é capaz de perdoar e esquecer uma infide-lidade apenas sexual, mas não admite nem a hipótese de voltar a viver com alguém que chegou a amar outra pessoa. Certos casos de amor costumam durar anos até sem serem descobertos, e isto fere violentamente a pessoa que foi enganada. A sensação de ter sido "o último a saber" é perturbadora e lembra a possibilidade de que todos estariam rindo às suas costas.

Quando há alguma chance de salvar o casamento, a pessoa infiel deve fazer todo o possível para provar que ainda tem amor verdadeiro a oferecer, que deseja de todo o coração compartilhar a vida a dois. O fato de permanecer em casa e a tentativa de refazer o casamento podem ser tomados como uma demonstração sincera de afeto. Mas se não houver plena certeza de que o caso extraconjugal acabou, nenhum esforço dará certo.

Muitos casamentos se desmancham por causa da infidelidade e da mentira. Ao descobrir o relacionamento íntimo do parceiro com outra pessoa, certos homens e mulheres ficam tão magoados que perdem todo o interesse pelo companheiro. A dor transforma-se em rancor e repulsa e o divórcio acaba sendo a única saída.


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